Descendo aquele elevador e pensando quantas vezes já havia me olhado naquele espelho sem me reconhecer. Ao abrir a porta e respirar pela última vez aquele ar com cheiro fresco de citronela, não aguentei e chorei, não sei se de tristeza ou alívio. Aqueles últimos anos foram os mais difíceis da minha vida, foram os mais pesados e eu estava exaustivamente achando um jeito de recomeçar. Quem sabe aquele fosse o momento.
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
Eu estou aqui hoje por dois motivos: Falar sobre você sem derramar lágrimas e contar o porque desisti de você.
Meu amor, se é que posso te chamar assim já que em vários momentos teu ódio por mim impedia que fossemos um o amor do outro. Eu encontrei você quando me sentia uma garota normal, eu tinha 20 anos e fazia apenas um ano que estava na faculdade, eu era bem novinha mas sempre fui calejada. Me encantei com seu jeito, com sua inteligência e queria com toda vontade do mundo descobrir mais sobre aquele seu universo. Eu me lembro dos seus blazers e da forma como sempre estava bem vestido, tirando a barra da calça jeans que era feita como calça social e os tênis que você nunca se importou em lavar. Eu te admirava, eu queria te desbravar, eu queria te conhecer até não ter mais esconderijos ai dentro.
Em uma semana estava te fazendo juras e pensando em casar e ter filhos com você, eu era nova, boba, imatura. Assim como o amor chegou derrubando tudo o que estava pela frente, nossas brigas também chegaram. No começa ambos achávamos que era culpa da minha imaturidade e dos meus 20 aninhos mas nossa relação amadureceu, nos casamos. Nessa época eu estava com 21 anos e não tinha nada, só você. Nossas brigas pioraram, eu sentia vontade de me afastar de você mas você me culpava e culpava sempre minha imaturidade por isso. Em um dia você me amava, no outro me odiava.
Você se afastava cada dia mais de mim e eu insistentemente te pedia para voltar a ser o mesmo, pedia para me dar atenção e me levar junto com você quando saía com seus amigos. Esses dias dei uma stalkeada em um dos seus amigos e tinha fotos de vocês em um barzinho, a maioria das pessoas tinha um acompanhante sentado ao lado, assim como eu fazia, te levava para qualquer lugar que eu ia e você conhece todos os meus amigos.
Nessa luta incessante pela sua atenção, eu acabava perdendo a linha, era controladora, estúpida, grossa, te tratava muitas vezes com um ciume possessivo e tinha paranoias absurdas. Eu estava enlouquecendo aos poucos.
Depois de tanta loucura e briga, você decidiu me separar. Eu me lembro de chegar em casa do trabalho e você ter visto vários lugares para morar antes mesmo de me avisar, aquilo me doeu demais. Você chamou suas filhas e foi conhecer casas novas. Eu precisava achar algum lugar mobiliado rápido já que não teria móveis e a casa estava no seu nome, me mudei. A mudança e os dias que se passaram depois foram os piores da minha vida. Você brigou comigo naquele show, não atendia meus telefonemas e me cobrou R$2.600,00 que te devia. Eu precisava te pagar em um mês. Dentre essas cobranças, me lembro da sua voz fria ao telefone, me dizendo coisas que eu não merecia ouvir e que eu jamais esperei ouvir de você. Dessa vez você me pediu perdão, eu aceitei. Logo depois estávamos juntos novamente, mas por pouco tempo. Depois da nossa separação passaram-se 2 anos de idas e vindas, você sempre me mostrando que não tinha certeza se queria estar comigo e isso me enlouquecendo ainda mais, eu te queria de uma maneira cega e burra, só faltava te amarrar ao pé da cama, mas você apenas demonstrava que não queria. Eu precisava insistir para ficarmos juntos, sairmos juntos, dormirmos juntos.
Foi então que você juntou suas coisas pela última vez e saiu de madrugada da minha casa. Eu quis morrer, eu virei só tristeza.
Foram 7 meses, você estava com outra pessoa em menos de uma semana, quando eu percebi que tinha uma garota diferente curtindo suas fotos do facebook fui conversar com você e você falou com muita sinceridade que a garota era uma louca, que quis ficar com você, que te ligou pedindo seu endereço mas que você não deu, porque EU era o amor da sua vida. Lembro da sua voz me falando isso, contando a história com detalhes. Meses depois você deixou escapar que ela havia ido até sua casa, que sabia seu endereço, que entrou na sua casa e que você ficou com ela.
Eu aceitei e como forma de amenizar minha dor, quis me entregar a outra pessoa, eu passei a perceber que outras pessoas me desejavam e que eu precisava corresponder, na minha inocência fui pedir perdão e dizer que agora eu precisava também me entregar a outras pessoas. Imagino que naquele momento você já estava na sua casa rindo de mim, você já estava com outra garota, vivendo outra história. Uma semana depois disso, eu ainda não conseguia realmente me entregar e não conseguia ficar com outra pessoa, foi então que você me mandou uma foto deitado na cama com outra. Meu mundo desabou, eu tinha raiva, ódio de você, não entendia porque me magoava daquela forma, porque queria me ver triste, queria te ligar e xingar. Novamente te perdoei.
Essa última garota ainda não era o suficiente, você trocou ela e já estava com outra, essa era linda, madura, inteligente e tinha filhos, você sempre quis ficar com uma mulher com filhos, para que ela fosse mais compreensível. Ela era tão linda que você quis me mostrar foto, falava do cabelo e do corpo dela com brilho nos olhos. Até que se cansou dessa também e eu... te perdoei.
Eu já estava exausta, cansada disso. Procurei terapia, psiquiatra, acupuntura, floral... Nada resolvia. Eu sentia que realmente estava enlouquecendo. Aquilo tudo era demais para mim.
Foi então que surtei... Eu surtei e você alimentou, me chamava de louca enquanto eu surtava, me chamava de doente. Fui parar na emergência três vezes nesses últimos dois meses, eu chegava lá completamente fora de mim.
Eu decidi que precisava acabar com tudo isso e que precisava me afastar de você, sai, fui pra balada, conheci gente, fiz amigos, tentei incansavelmente voltar a ser o que eu era antes de te conhecer.
Sem mais nem menos, garotas que você ficou começaram a me perseguir, curtindo e compartilhando fotos minhas, aquilo voltava a me deixar triste e a reviver tudo. Fui te pedir para fazer aquilo parar. Depois que foi falar com ela, mudou completamente o tom como falava comigo, me chamou de baixa e chula porque eu estava conversando com outras pessoas, disse que se sentia vergonha por ter ido falar com ela, já que ela disse que nem me conhecia e que eu estava mentindo.
Eu não menti para você nem dessa e nem de todas as outras vezes que você desconfiou de mim, eu tenho convicção do que fiz por você. Claro, eu errei muito em todos esses anos, falei coisas que não deveria e pedi perdão quando me arrependia. Surtei, chorei, tive ciumes e paranoias.
Eu desisti de você porque não posso ser perfeita, não posso ser aquilo que nunca fui. Não posso mudar meu passado, não posso mudar o fato que fiquei com muita gente antes de você, não posso deixar de conhecer pessoas novas apenas porque você acredita que tudo termina em sexo e assim como você faz, de adicionar no facebook para transar, eu também faria.
Você me falou que não tenho respeito por você porque mandei um print onde aparecia uma conversa com um garoto e isso era não ligar para seus sentimentos. Pelo contrário, eu jamais esconderia algo, jamais negaria que conversei com alguém, jamais mentiria para você por causa de outra pessoa.
Suas mensagens de ódio começaram perguntando se eu tinha ranço de você, porque eu disse que ingratidão era algo que me fazia pegar ranço das pessoas, JAMAIS me referindo a você. Eu nunca tive ranço de você mas você na sequencia me cuspiu todo o ranço que tem de mim, me chamando de demagoga, hipócrita, falando que eu sempre quero ficar por cima dos outros, me chamou de déspota, disse que eu te usei, manipulei, me falou que se arrependeu de ter ficado comigo...
Eu sei dos meus defeitos, sei das minhas fraquezas, sei dos meus surtos, das minhas falhas, do meu ciume, da minha mania de sufocar... Mas também sei do meu caráter, sei que nunca dei motivos para ser chamada de tudo isso, sei que já errei muito e te falei coisas horríveis também, mas não foi simplesmente por ter conversado com alguém, como se estivesse cometendo um crime.
Você já disse outras inúmeras vezes coisas assim e eu desisti de ser perfeita ou de passar uma segurança inútil para você, sendo que meu caráter sempre é julgado em qualquer briga.
Hoje, depois de ler todas essas coisas, seria falta de amor próprio dizer que amo alguém que fala essas coisas. Eu sinto um carinho por você, por ser o primeiro que me entreguei completamente. Mas sinto muito, você matou qualquer admiração que eu poderia ter por você e sei que eu sendo tão hipócrita, demagoga, déspota, baixa... você também não deve sentir um pingo de admiração por mim. Agora ficou fácil nos largarmos de vez, você conseguiu.
Ps. Não derramei uma gota de lágrima.
terça-feira, 9 de agosto de 2016
Vitamina de abacate e bolo de abacaxi
Era dezembro e eu sei que em dezembro faz sempre tanto calor, eu te acordava ou acordávamos juntos, não consigo me lembrar ao certo, só lembro da sua insistência em abrir a cortina e a minha insistência para aproveitar o resto da manhã na cama, sem nenhum compromisso, você sempre foi teimoso demais. Levantava, abria a cortinha enquanto eu continuava deitada vendo as partículas de poeira dançarem no ar, eu sempre adorei as partículas de poeira contra a luz, desde que era menina do interior do Paraná e deitada na cama, com as pernas erguidas na parede, admirava a poeira pairando enquanto minha mãe gritava para eu levantar logo da cama.
Era dezembro e eu vivia completamente feliz na nossa vida sem luxo em uma apartamento apertado de móveis cheios de cupins. O calor fazia o cigarro apagar, pela força do ventilador que deixávamos ligado 24 horas por dia e você repetia sempre a mesma frase: "Você sempre faz esse cigarro apagar". E eu sempre achei graça nas suas frases que eu tinha que ouvir repetidas vezes, eu sei que foi em dezembro e que logo não vou me lembrar de todas as frases e de todos os nossos domingos deitados na cama mole de colchão duro.
Era dezembro e sentávamos no chão, com uma calculadora, canetas, marca texto e com nossos cadernos de anotar, fazíamos nosso planos sempre tão difíceis e tão apertados. Eu sorria, porque no fundo acreditava demais que daria certo. Guardávamos nossos sonhos nas nossas (agora só suas) pastas e voltávamos a viver nossa vida de compra de mercado contada e felicidade ao sobrar para um pacote de bisnaguinha. Eu sempre odiei bisnaguinha.
Daqui a pouco dezembro chega, o frio está já quase indo embora. Em dezembro eu quero conseguir abrir as cortinhas, até lá não vai ter mais cigarro apagado no vendaval do ventilador. Eu espero desesperadamente dezembro chegar, o calor chegar, porque lembro que em dezembros passados, esperava ansiosamente junho e o frio que passava fora das nossas cobertas, sempre tão quentes e tão bagunçadas. Em junho você esperava sempre um pouco mais para levantar e abrir as cortinas e por isso invernos me doem tanto.
Eu não sei quanto das memórias vou perder até dezembro, não sei se vou sentar no chão e criar uma lista de metas para deixar guardada comigo, mas eu vou abrir as cortinas e passar o café, eu vou escolher domingos para comer pastel de carne seca com milho sentada na minha canga verde. Eu vou passar protetor solar e sair com a minha sombrinha que protege dos raios UV e não vou me envergonhar dela.
Agosto não é mês de criar listas, mas se eu pudesse, minha primeira meta seria: Aguentar até dezembro.
sexta-feira, 29 de julho de 2016
Foi na despedida do Hector Babenco dessa imensa máquina de solidão que pude ter uma pequena lembrança de como é ouvir as palavras doces de um conto em sua boca e de como me sentia inteiramente iluminada ao descascar batatas em certas ocasiões. Não, não vou escrever sobre descascadores de batata e a imensa gratidão que tenho pelo inventor do descascador de batatas que adiantou em alguns segundos minha ida para a cama, para estar mais uma vez na prévia do melhor calor humano que já senti e que sei, nunca mais vou poder provar.
terça-feira, 19 de julho de 2016
Ele adorava iogurte de ameixa e eu lembro disso desde a primeira vez que fui na sua casa, ele tomava o iogurte assistindo qualquer baboseira que passava na TV e eu admirava a concentração com que ele fazia aquilo. Todos seus movimentos eu sempre admirei e poderia ficar horas observando o que ele estava fazendo, tudo me encantava como se fosse mágica. Se estava consertando o chuveiro, se estava cozinhando, quando estava parado segurando um livro em uma mão e um cigarro em outra, quando parava na janela com as mãos apoiadas no batente. Eu me encantava com os movimentos, meu coração palpitava tão forte.
Eu pedia sempre que podia para ele ficar comigo para sempre, eu ficava entusiasmada com a possibilidade de me encontrar velhinha admirando seus movimentos sempre tão lindos, eu queria ver ele velhinho, lendo Cortázar ao chiado da panela de pressão cozinhando pinhão nas nossas noites de inverno com vinho.
Passou o tempo e ele decidiu não ficar comigo para sempre, senti uma dor que me parecia não haver maior, chorava a qualquer momento e evitava conversar com as pessoas, pois o pranto não avisava quando vinha. Passei a odiar Cortázar e pinhão, ficou só o vinho. Em um domingo, chorei o dia todo, ao ponto do vizinho vir bater na porta e perguntar se eu estava bem. Comecei aos poucos a sair de casa, posso dizer que conheço todos os bares da Trajano Reis, Vicente Machado e das proximidades da Reitoria. Já acordei em várias camas, com vários cheiros, diferentes formatos, umas o lençol era de algodão e outras de seda, mas nenhuma me encantava.
O tempo foi passando e algumas coisas foram mudando, a dor decidiu ir embora um dia, colocou a mochilinha targus nas costas, subiu no primeiro Santa Quitéria que viu e foi embora descendo as ladeirinhas do Campo Comprido. Sim, minha dor se parece muito com ele.
Ainda sinto e isso não me dói, o que fiz foi amar e é melhor deixar partir do que insistir pelo desastre. Ainda me lembro dele e cito seu nome tantas vezes que parece que foi ontem que foi embora. Me acostumei com o fato de ter mudado e de ter que ficar enquanto ele embarcava naquele ônibus.
Quando eu pedia para ele ficar para sempre, ele sempre prometeu que ficaria e hoje eu acho que o nosso "para sempre" leva tempo diferente para acabar.
terça-feira, 5 de julho de 2016
Acordei e sentei ao lado da cama, coloquei os dois pés no carpet, como de costume. Estiquei meu braço e puxei a coberta para te cobrir em um gesto completamente automático e desesperado de te encontrar na cama. Não encontrei.
Eu tinha 20 anos e todos os sonhos do mundo comigo, planos das viagens, dos filhos e do próximo livro da nossa estante. Acabou e é assim que caminho, completamente desesperada todos os dias, em busca de um objeto fora do lugar esperando que você tenha passado por ali, em busca do seu caminhar naquela calçada que enxergo do sexto andar e que nunca te vejo. Eu tinha 20 anos e a certeza absoluta que te queria para o resto da vida e essa foi a única coisa que sobrou, a certeza.
É essa certeza que me mata todos os dias quando olho os cabides no guarda roupa, a certeza de que nunca mais suas camisas estarão ali para eu ter certeza que você ainda volta ou para eu colocar um bilhetinho te lembrando de me amar. A certeza puxou meu tapete ontem, quando fiz apenas uma xícara de chá e me fez lembrar que vai ser assim agora. Tive que tirar tuas lembranças da casa, sua toalha e seu chinelo que estavam te esperando, eu tenho certeza que você não volta e tenho certeza que não vou esperar mais e essas certezas são as que mais me doem. Eu tenho certeza das coisas que vão permanecer comigo mas tenho mais certeza das coisas todas que você levou embora. Tenho certeza que suas decisões são sempre sem volta. Eu sei que não vai cansar de fugir e que não vai voltar. Eu me conformei com a sua ausência.
A menina dos origamis e dos olhos de mel também foi embora com você, ela partiu carregando a certeza que não há lugar nesse mundo onde caiba tanto amor e tanta vontade de ficar.
Break my legs so I won't walk to you
Cut my tongue so I can't talk to you
Burn my skin so I can't feel you
Stab my eyes so I can't see
You like it when I let you walk over me
You tell me that you like it
Your love is killing me
segunda-feira, 27 de junho de 2016
Não é você
Não, não é o garoto perfumado da área de filosofia da Biblioteca Pública do Paraná e não é o rapaz que lê Faulkner de pernas cruzadas no sofá do Pátio Batel. Poderia ser o engenheiro florestal do aplicativo e que tem um bom conhecimento em acampamento, mas também não é esse. O rapaz de 1,98m da editora, lindo e que parece o Hozier; o ex-namorado que tentei investir por um bom tempo; o moço com traços indianos que conheci na Trajano Reis enquanto tentava esquecer um amor velho; o amigo bonito e inteligente do meu irmão; o atendente da livraria que recita de cor o Poema em linha reta; também teria grandíssimas chances de ser o ex ficante que me chamou para ir ao show do Escambau e que renderia filhos lindos e loiros, mas não é! O enfermeiro, o baterista, o vizinho, o poeta, o nerd, o baixinho do quarto andar, o britânico do sotaque perfeito, o que é apaixonado por kart, o que voltou agora do intercâmbio, o que fiz sexo casual na semana passada, o que me deve aquele chá das 18h no paço, o que me pediu para ficar, o que me levou para almoçar as 14h da tarde, o japonês, o vendedor, o ex-escoteiro, o que toma bala em rave, o que transa bem mas é feio, o que diz eu ser a garota mais inteligente... Não é nenhum desses e eu sei, não me pergunte, mas eu sei! Pode ser lindo, pode ser inteligente, pode parecer o melhor... Mas não é, não escolho, não me esforço e não tenho mais 20 anos para me forçar ficar apaixonada por mais de uma semana, eu quero paixão sem me cobrar, quero sentir a taquicardia, quero o frio na barriga e as mãos suadas, quero chorar de amor, quero olhar nos olhos e ter certeza, quero amar sem lembrar do resto, quero me perder, quero ser natural, sem esforço. Quero me dar por inteira, cada pedaço de mim, quero unir cada pedaço do meu ser, quero encontrar aquele que me olhe nos olhos e que não precise falar mais nada.
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