quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Eu teria sido sua

Eu teria sido sua. Eu teria te acordado todos os dias com aqueles beijinhos dedicados, logo depois de sair do banho, com meu hálito de hortelã. Eu, todas as noites, grudaria meu corpo no seu e falaria que encaixávamos perfeitamente, riria com o barulho das nossas alianças quando nossos dedos se tocassem. Eu seria fiel todos os dias. Te desejaria um bom dia, um bom almoço e naqueles dias que a saudade apertasse demais eu te ligaria, só para ouvir a sua voz. Eu teria decorado nossa casa do meu jeito, olharia para as paredes com orgulho dos quadros com as nossas referências literárias. Eu me colocaria a disposição para arrumar nossa estante novamente, pedacinho por pedacinho. Da mesma forma, juntaria tudo o que já havia se quebrado, grudaria e colocaria no lugar, compraria litros de super bond para grudar a mesa, o prato, nosso coração. Eu teria, sem vergonha nenhuma, te esperado voltar. Eu iria sorrir toda vez que te visse, esperaria você dar a primeira mordida, daria beijo no teu ombro, ficaria até tarde conversando, jogaria baralho e leria poemas beats em voz alta. Pediria para tatuarem o livro todo no meu corpo, frases e frases. Eu, com todo orgulho do mundo, iria parir frutinhos do nosso amor, colocaria o nome de Clara e Ulisses. Eu iria querer ter um scottish fold e um bulldog, mas o Fante e a Bova sempre estariam se atracando pelo chão. Eu seguraria sua mão bem firme, suada, enrugada e sem força. Eu estaria lá. Estaria lá na cozinha fazendo almoço enquanto você na sala, varreria o chão ouvindo e cantando Esteban bem alto. Acordaria mais cedo para fazer café da manhã, dividiria minha garrafa de whiskey, apareceria em plena Marechal Deodoro com uma rosa na mão e com os olhos brilhando. Diria mais milhões de vezes que te amo e que você é a minha vida. Teria dedicação. Aceitaria. Remendaria seu sorriso e sorrindo, te costuraria mais uma ruga. Eu ficaria o dia pesquisando peças de teatro para irmos, quando março chegasse. Eu iria naquele show daquela banda que eu não gosto e insistiria pela sua presença quando aquela minha banda favorita também tocasse. Eu iria pedir pra você chegar logo, iria falar da sua demora ao sair comprar pão e pediria mais uma vez o café do marido. Vestiria suas cuecas quando o vestido fosse curto, sentaria no meio-fio para beber cerveja e te esperaria, com o coração saindo pela boca, quando fizesse aquele jantar especial. Eu iria me aconchegar no seu peito quando o dia fosse difícil, resmungaria quando você se mexesse para pegar um cigarro, te daria um beijinho na divisão entre a pele da bochecha e a barba. Eu planejaria presentes para você e talvez acabasse te entregando antes mesmo da data especial chegar. Sempre fui ansiosa demais. Faria charme, cu doce, choraria mas deixaria bem claro que te amo. Eu te faria aquela cara quando quisesse comprar mais um vestido mas no fundo saberia que você iria achá-lo lindo e iria ceder. Eu iria pedir para tomar banho com você, mesmo sabendo que você não gostaria muito da ideia e se aceitasse, de tanta teimosia minha, eu molharia seu peito antes de desligar o chuveiro.
Eu teria sido sua. Eu teria pensado em você hoje o dia todo e comemoraria por amanhã já ser sexta. Eu já teria nosso sábado e nosso domingo programado. E no fim, eu choraria. Eu choraria porque você iria embora, marcaria mais um viagem em cima da hora, me esqueceria aqui. Eu choraria te esperando em uma escada suja, eu choraria ao abrir a porta e ver uma chave jogada no chão e a casa vazia. Eu choraria quando no auge do meu amor, você me pedisse para não ter esperanças. Eu viveria mais um dia a mentira de achar que iria querer ficar comigo quando você já tinha planos com seus amigos, amigos esses que eu não estava inclusa. Eu choraria até pegar no sono quando te visse desistindo mais uma vez. Eu ficaria sozinha enquanto você solucionaria os problemas da sua ex mulher e do casamento dela. Eu teria crises de pânico na rua e enquanto uma desconhecida ligaria para a minha mãe, você estaria passeando pela pinacoteca em SP.
Eu teria sido sua se eu não tivesse desistido naquela quinta-feira, eu teria sido sua se eu não tivesse jogado todos os feijõezinhos fora quando me falou que esperança não adiantaria mais. Eu teria sido sua se você tivesse me ouvido aquele dia que eu pedi para se acalmar. Eu teria sido sua se ainda quisesse ser sua. Eu ainda seria sua se caísse ao menos uma lágrima no decorrer desse texto. Eu seria fiel às minhas promessas. Eu não estaria sorrindo com a liberdade se não me falasse que tudo o que queria era sua cama e sua casa, sem mim. Eu não me apaixonaria por outro se me completasse com o amor que preciso ter. Eu teria sido sua se fossemos um, se em ao menos um momento você me visse como parte de ti. Eu seria sua, eternamente sua, se te desse paz.
Eu sequer estaria aqui, estaria chegando aí pra te ver e contar como foi meu dia.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Eu sou a favor do amor. Sou a favor de tentar outra vez, de dar outra chance mesmo que todas as chances já tenham sido gastas. Aliás, acho que o amor está justamente aí, no final, quando já esgotou. No resto. E ainda assim, tentar outra vez. Sou a favor de sentar e ouvir. Sentar e gritar. Sentar e chorar. Sentar e ficar. Permanecer. Calado ou gritando. Sou a favor de mandar embora e no outro segundo puxar o braço num abraço apertado que prende, que alivia. Sou a favor da insistência ao que faz bem pro coração. A favor do que me faz vibrar, gritar, chorar e o coração acelerar. De não medir esforço pra ver o que me faz bem continuar comigo. A favor do que me faz sorrir e me traz paz na alma.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Batata-frita

Sempre achei que esse amor era coisa de quem não tinha nada melhor para fazer. Eu só o sentia porque estava infeliz naquela vida pacata. Só por isso. Resolvi então agitar a vida pacata. E comecei a sair mais de casa, enxergar as pessoas ao meu redor, mais viagens, mais baladas. Amor é coisa de gente pacata e agora que eu tinha uma vida agitada, poderia, finalmente, mandar esse amor embora. Tchau, coisinha besta.
Nada feito. Só piorou. Acordava e ia dormir com ele engasgado aqui. Ficava inconformada. Mas aí concluí: amor é coisa de quem tem tempo pra pensar nele. Claro, mesmo com a semana agitada entre faculdade e trabalho, eu fico em casa o fim de semana todo, alegando cansaço, no silêncio das minhas coisas, claro que acabo pensando besteira. Aquele papo de mente desocupada casa do diabo, sabe? Amor do diabo. Fui procurar Jesus.
Depois de dez passes e de ler todo o Evangelho Espírita, achei que ficaria tudo bem. Ficou nada. Eu só parei de sonhar que botava fogo no apartamento do ser amado ou que arrancava os olhos de todas as mulheres do mundo. Parei, talvez, de odiar o amor. Mas o amor, na verdade, ficou lá. Duro que nem pedra. Daqueles que não vão embora nem com reza brava.
Amor adolescente, pensei. Com certeza, se eu virar mulher, esse amor bobinho passa. Amor de menina boba. Tratei, então, de virar mulher. Quem sabe mudando o visual, esse amor não se mudava de mim? Nada feito. Cabelo novo, roupas novas, sapatos novos, novas contas pra pagar. E o mesmo coração idiota. O mesmo amor de sempre. Coisa chata, não?
Ah, que que é isso! Amor deve passar com um novo amor, não? Olha lá aquele menino bonito te olhando, o outro que escreve bonito, o outro que te faz rir um monte, tem também aquele ali, com mão firme. Nada. Nenhum deles foi capaz de me salvar, de substituir minhas células cansadas em sentir sempre a mesma coisa. Nenhum foi capaz, nem por um segundo, de me levar para passear em outros tormentos. Ou outras alegrias. Qualquer outra coisa que seja.
Aí veio a idéia brilhante. Será que se eu mergulhasse de cabeça na estupidez desse amor, não me curava? Será que se eu, por um minuto apenas, parasse de sentir tudo isso de dentro da grandiosidade que eu inventei para tudo isso e enxergasse de perto como tudo é tosco e pequeno, eu não me curava? Só piorou. De frente para ele e suas constatações tão absurdas a respeito de tudo, só consigo sentir ainda mais amor. E quanto mais e maiores motivos para não sentir, ele e a vida me dão... Adivinhem? Sim, o amor cresce. Irresponsável, sem alimento, sem esperança e de uma burrice enorme. Ainda assim, forte e em crescimento.
Mas esse amor, ah, esse amor é coisa de quem não ama a própria vida. Se um dia, um dia eu pudesse realmente ser uma Jornalista. Ou até, nossa, se eu pudesse trabalhar na televisão sabe? Esse amor iria embora, claro. Nada feito. Estou aqui graças a minha maior qualidade: a fé. Sim, isso só não funciona pro amor, mas pra todo resto na minha vida acreditar sempre funcionou. Tudo certo com a minha vida. Ou quase tudo certo. Ainda sinto esse amor ridículo. Essa coisa infernal que me vence todos os dias, todos os minutos. Quantos bons contatos me admiram e me elogiam. Ainda bem que alguém além de mim acredita em mim. É tanta coisa boa acontecendo, tanta gente boa se aproximando que tá na hora de acordar. Enxergar. Receber.
Taí. Tá bom. O amor venceu. Você venceu. Venceu. Venceu. Venceu. E eu acabo de descobrir, simples assim, a única maneira de me livrar desse sentimento: aceitando ele, parando de querer ganhar dele. Te amo mesmo, talvez pra sempre. Mas nem por isso eu deixo de ser feliz ou viver minha vida. Foda-se esse amor. E foda-se você.

Tati Bernardi

Anda

Desamarra esse nó da garganta, reage. Vai, menina! Tira do peito isso que não é mais teu, joga fora. Já chorou, já sofreu, agora desapega e não olha mais pra trás. Vai, te ajudo, promete para você mesma: Não me permito chorar novamente por isso! Não me permito implorar amor! Não me permito lutar por algo que há tempos já morreu! Vai continuar doendo mas teu passo vai ser firme agora, a culpa não foi sua, você se doou, se entregou, perdoou e não tem culpa de desistirem de/por você. Lá fora o sol está lindo e você precisa só abrir a cortina para ver, levanta, toma um banho, passa uma maquiagem e vai! E se doer, pensa que isso tudo serviu para te fazer menina mas com a coragem de mulher.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Não fizeram planos. Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex, que ambos eram meio bruxos, meio ciganos, assim meio babalaôs. Talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem juntos para Paris, por exemplo, Praga, Pittsburg ou Creta. Talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada. Porque era cedo demais e nunca tarde. Era recém no início da não-morte dos dois.

Depois de agosto - Caio Fernando Abreu

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Quando o amor foi buscar um canto aquecido.

Esse texto nunca será bom quanto os anteriores e os textos que estão por vir também não serão bons o bastante, porque nós nos perdemos em uma curva qualquer, nós nos perdemos quando você soltou minha mão para ficar mexendo no celular. E eu doei todo o meu calor, doei todo o meu amor achando que seria o bastante para que nós dois dividíssemos e não desistíssemos, só que não adiantou, você estava ocupado demais com qualquer coisa banal. Quando pela última vez pedi para você olhar para mim, você estava querendo dar amor para outra pessoa, outra pessoa que pelo seu tom de voz rude, aceitei ser mais valiosa que eu e como sempre lhe falei, não aceito metade de você, sou muito mais amor que essa metade e para ver se você olha para mim, te digo, quem estava ai do seu lado quando você não olhou, era até então o que você dizia ser o amor da sua vida. Eu já não acredito em amor da vida, deixei de acreditar quando você trocou o amor da sua vida, por um celular, ainda com a alegação "é fulano!", ok, fulano, fique feliz, você é mais importante que eu, que estou aqui nesse supermercado, com os braços cheios de compras esperando ele digitar uma frase qualquer no celular, você não pode esperar, eu posso.
Hoje você não vai perceber o que foi tudo isso, hoje você não vai perceber o poder das suas palavras e das suas frases. Hoje você não vai perceber que tudo aquilo que me disse nos últimos dias só serviram para eu me afastar, você não vai perceber que quando me apontou defeitos, não me fez menor ao mundo, apenas menor do que aquelas pessoas que você diz coisas tão lindas diariamente e isso diminui apenas o amor, poda o amor. Hoje você não vai perceber o quanto matou o que sinto, ao deixar o livro que te dei perdido em uma estante e agradecer com frases tão lindas aquele que ganhou de outra pessoa. Da mesma forma que você disse devorar esse livro, devorou algo bem maior aqui dentro. E talvez hoje você não aprenda a cuidar do amor que está do seu lado e valorizar aquilo que não pode, de jeito nenhum, ficar perdido em uma estante. Estava do seu lado! Do seu lado! Mas você deixou ir embora e nem percebeu.
Eu sei que você nunca irá agradecer por eu ter entrado na sua vida, muito menos por acalmar seu choro quando se sentiu um inútil, você nunca irá agradecer os concelhos, o apoio, o amor...
E é por isso que o nosso amor se despediu de nós e foi pra longe, onde possa ouvir coisas bonitas e possa ser reconhecido. Ele foi para um lugar que quando ele estiver perto, seja autossuficiente, porque sabe que o tempo que está amputado da outra metade já é grande demais para quando estar junto outras coisas serem mais importantes. Nosso amor foi embora com toda a desesperança do mundo em nós dois, foi se sentindo menor que amores tão passageiros. Foi embora da maneira mais triste, talvez menos dolorosa mas foi por saber que aqui alguém não estava satisfeito com ele.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Eu queria escrever algo diferente hoje, algo que transferisse em letras tudo aquilo que eu sinto por você. Hoje eu gostaria de eternizar nós dois em um papel, para que nem eu nem você acabe deixando o passar dos dias corroer nossas memórias. Hoje eu queria ter uma recordação física de cada um dos mais de 1000 dias que passamos juntos, poderia ser um bilhete de cinema, um fio do meu cabelo laranjado para que nunca esquecêssemos de quando você me chamava de tangerina, uma embalagem daquela antiga marca de cigarro que costumávamos comprar, um rótulo daquela cerveja que bebemos no meio fio na frente de casa, um ticket do mercado de quando compramos ingredientes para fazer pastel ou qualquer outra besteirinha que te trouxesse aqui, mais pra perto de mim, mesmo hoje estando tão longe. Só queria te deixar mais fresco aqui nos meus pensamentos.
Hoje, já não penso mais em você quando estou indo para casa, sei que não vou te encontrar e prefiro não pensar, para não surpreender meu coração com a sua falta ao abrir a porta. Eu já não posso saber de você, não posso te perguntar se comeu ou se seu dia foi leve e isso me dói, dói por saber que nunca vou conseguir explicar o que era te mandar mensagem de bom dia, nunca vou conseguir descrever a tranquilidade que me passava quando falava que almoçou bem, que não colocou muito sal na comida, que pensou em mim e assim como eu, sentiu uma falta de apertar o peito.
Agora, que tudo acabou, te guardo aqui no cantinho, com o mesmo amor e carinho e lutando para o tempo não levar você completamente de mim e como você mesmo tem costume de dizer, meu blog, agora é o único que pode ouvir meu desabafo.